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Conselho Estadual do Meio Ambiente do Pará analisa
na próxima semana a polêmica instalação
da primeira usina termelétrica do Estado, localizada
no município de Barcarena (40 quilômetros ao
sul de Belém) . Totalmente financiada com capital privado
da Vale do Rio Doce, a térmica abastecerá a
siderúrgica anunciada pela empresa há cerca
de dois meses. A capacidade de geração será
de 600 MW e o investimento na ordem de US$ 600 milhões,
criando dois mil empregos diretos no período de construção.
O Ministério Público do Pará é
contra a obra, lembrando que a empresa não analisou
outras alternativas menos poluentes, como energia eólica
e biomassa.
Mas a Vale conseguiu um aliado nessa briga. A empresa convenceu
o governo do Pará da viabilidade do empreendimento
e o secretário de Meio Ambiente do Estado, Gabriel
Ortega, acredita que o impacto ambiental foi dirimido. "Uma
usina térmica no coração da Amazônia
é algo polêmico, considerado um escândalo
econômico e ambiental. Mas outras cidades da região
têm térmicas movidas a diesel, muito mais poluentes
do que o projeto da Vale", defendeu Ortega, citando Porto
Velho, Manaus e Rio Branco como exemplos.
A Secretaria de Meio Ambiente deu parecer favorável
ao projeto após algumas correções de
rumo feitas pela Vale, a pedido do órgão. O
primeiro deles foi uma garantia de que a emissão de
dióxido de carbono (CO2), proveniente da queima do
carvão, aconteceria em níveis bem abaixo dos
exigidos pela legislação ambiental brasileira.
Com isso, ficaria eliminada a possibilidade da chamada chuva
ácida.
De acordo com Ortega, a mineradora prometeu a ele que as emissões
seriam menores, baseada em dois fatores: o primeiro, a capacidade
técnica da empresa, que passou a adotar um moderno
sistema de queima de carvão, que emite menos poluentes
no ar. O segundo, a melhor qualidade da matéria-prima
utilizada na combustão. "Antes, a Vale utilizava
carvão comprado no Rio Grande do Sul. Agora, importará
de Moçambique, onde também tem uma fábrica,
mas com uma material de melhor qualidade", disse Ortega.
O secretário paraense disse que, no caso de Barcarena,
essa preocupação com os níveis de poluição
do ar torna-se ainda mais dramática do que em outros
locais. Testes feitos pela Secretaria de Meio Ambiente do
Estado mostram que o nível de saturação
do ar de Barcarena está próximo do limite -
antes mesmo da instalação da nova fábrica
da Vale e da térmica.
Por outro lado, o sistema hidrelétrico da região
está praticamente saturado. A nova siderúrgica
da Vale precisa, no mínimo, de uma geração
de um gigawatt (mil MW) para produzir. A pressão da
empresa para a instalação da térmica
vem de uma dúvida sobre a capacidade nacional de fornecimento
de energia no período entre 2011 e 2013.
"Os empresários temem um colapso nacional nesse
período e apostam que as usinas do Rio Madeira só
começarão a operar, na melhor das hipóteses,
em 2014". A outra grande obra no setor, a hidrelétrica
de Belo Monte, no rio Xingu, tornou-se uma incógnita
até para Gabriel Ortega. "Ainda é muito
cedo para dizer quando e se ela entrará de fato em
funcionamento", disse o secretário de meio ambiente.
Outro ponto do projeto que preocupava a Secretaria de Meio
Ambiente do Pará era a destinação dada
às cinzas provenientes da queima do carvão.
A idéia inicial era a construção de local
apropriado para acondicionamento dessas cinzas. Mas o clima
da região, com muitas chuvas, aumentaria o potencial
poluente, pois elas poderiam se espalhar pelo ar mais rapidamente.
A Vale, então, fechou uma parceria com a Votorantim,
que também atua na região norte. As cinzas serão
misturadas ao calcário para a produção
de cimento. O grupo acaba de instalar uma moagem do produto
em Barcarena.
O promotor de Justiça e coordenador do núcleo
de Meio Ambiente do Ministério Público do Pará,
Raimundo Morais, será voto contrário à
instalação da térmica, embora admita
que, pela composição do Conselho de Meio Ambiente,
que será voz isolada. Raimundo reclamou que as falhas
do projeto da Vale só começaram a ser desnudadas
a partir das audiências públicas. "A nova
térmica apresenta uma série de incongruências".
Raimundo preocupa-se, em primeiro lugar, com a emissão
de CO2, que ele calcula na ordem de dois milhões de
toneladas ao ano. "É similar a emissão
de gases da cidade do Rio de Janeiro e oito vezes maior do
que todo CO2 emitido pelos carros de Belém", declarou
o promotor. Ele ainda faz outro cálculo - essa emissão
significaria 0,16% de tudo o que é emitido no Brasil.
"Esse percentual parece pouco. Mas não podemos
esquecer que sairá de apenas uma chaminé",
criticou.
O coordenador do núcleo de meio ambiente vai além,
reclamando que esse alto número de emissões
é algo preocupante em tempos de discussão sobre
mudanças climáticas e aquecimento global. "Sabemos
que o governo estadual tem um projeto para plantação
de um bilhão de árvores para captura do carbono.
Mas quanto gás carbônico será lançado
na atmosfera até que essas árvores tenham condições
de agir?", questionou.
Raimundo Morais lamentou também que outras alternativas,
como a biomassa e a energia eólica, sequer tenham sido
analisadas nesse debate. Dados da União Européia
mostram que a emissão de kg de CO2/MWh de eólica
é de 10-30; biomassa, 30; e carvão 800, o que
demonstra o alto potencial poluente dessa matriz. E criticou
o argumento de que a térmica precisa ser construída
porque a Vale teme um colapso de energia nacional entre 2011
e 2013.
"Nossa preocupação deve ser com o meio
ambiente ou com o cronograma de uma empresa privada?".
Paulo
de Tarso Lyra, de Brasília
14/10/2008

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